Profetas Sintéticos analisa perfis que utilizam linguagem espiritual para promover transparência no uso de Inteligência Artificial nas redes sociais
O Brasil mantém uma forte conexão com a espiritualidade. O estudo Brasil no Espelho, da Globo Gente, mostra que 86% da população declara possuir uma religião – e que a base de fiéis é composta majoritariamente por católicos (51%) e evangélicos (31%). Esse cenário de alta religiosidade consolidou o mercado espiritualista como um dos nichos mais promissores dentro da Creator Economy – setor que, em sua totalidade, deve movimentar US$ 205 bilhões em todo o mundo até 2026, segundo a Grand View Research
Mas há um problema crescente nesse ecossistema: conteúdos espiritualistas gerados por Inteligência Artificial proliferam nas redes sociais sem qualquer identificação. Replicam linguagem, estética e códigos religiosos com precisão – tornando impossível ao público distinguir o humano do sintético. E lucram: vendem e-books, suplementos, mentorias. Tudo disfarçado de fé.
Para combater esse fenômeno, surge o Profetas Sintéticos, uma plataforma gratuita do Estadão Blue Studio que detecta perfis de IA que exploram a vulnerabilidade espiritual sem transparência. O projeto, criado pela Africa Creative, combina Inteligência Artificial com análise humana para avaliar indícios de uso de conteúdo gerado por IA em publicações de cunho espiritual.
Hackear o algoritmo com a verdade
Como parte da iniciativa, foram criados três personagens sintéticos (um rabino, um monge e um padre) desenhados para operar dentro da lógica dos algoritmos das redes sociais. Eles replicam a linguagem e a estética dos perfis que estamos investigando, mas com uma diferença central: nunca ocultam sua natureza.
Após um gancho inicial curto, pensado para alcançar quem já consome esse tipo de conteúdo, os próprios personagens se revelam como gerados por Inteligência Artificial (IA) e deixam claro que não são pessoas reais. Essa revelação não é um detalhe criativo – é um princípio ético do projeto.
A partir desse momento, o conteúdo deixa de simular autoridade e passa a cumprir um papel educativo, direcionando a audiência para a plataforma Profetas Sintéticos, onde é possível verificar perfis e entender como identificar conteúdos artificiais.
Nela, qualquer pessoa pode checar se um perfil é humano ou sintético em minutos. A análise combina IA (que detecta padrões de linguagem, imagem e comportamento digital) com especialistas humanos (que validam os resultados). Quando um perfil é identificado como sintético, a plataforma alerta o usuário e envia um relatório técnico para as equipes de integridade da Meta e do TikTok. O objetivo é remover conteúdos que exploram a fé sem transparência.
“A plataforma Profetas Sintéticos une o poder da IA com a curadoria humana para restaurar a confiança, protegendo a vulnerabilidade do público e assegurando a autenticidade dos conteúdos que circulam nas redes”, declara Luís Fernando Bovo, diretor do Estadão Blue Studio.
“Nossa missão é dar transparência ao uso de Inteligência Artificial em conteúdos espiritualistas sem tal identificação. Com fé e religião não se brinca. É uma forma de garantir que as pessoas saibam a autenticidade do que estão consumindo”, diz Patrícia Colombo, VP de Conteúdo da Africa Creative.
O projeto é realizado em parceria com Paulo Aguiar e Ana Freitas, ambos especialistas em Inteligência Artificial, professores e creators; além de Felipe Pacheco, especialista em tecnologia, IA e criatividade. Personalidades como Astrid Fontenelle, Carolina Ferraz e Vic Gaibar repercutiram a iniciativa em suas redes sociais, alertando seus seguidores sobre os riscos da desinformação.
“Mapeamos mais de 500 perfis de IA que vendem fé. Usamos as mesmas técnicas que eles usam, mas para proteger, não para lucrar. É um espelho que mostra a verdade”, complementa Paulo.

